“Toda paixão beira o caos, a do colecionador beira o caos da memória”. É com essa citação de Walter Benjamin que o escritor/jornalista Philipp Blom abre o seu “Ter e Manter“, livro em que tenta desvendar a nossa estranha obsessão por buscar e coletar objetos.

“Tudo que tenho mais que dois eu quero colecionar” é uma frase com a qual me identifiquei a vida toda. Mas de uns tempos pra cá, uma incômoda impressão de acúmulo tem se sobreposto ao prazer de abrir o armário e admirar as roupas, olhar os livros pelo vidro da minha estante dos sonhos. É chegado o caos da memória? Bateu a vontade de uma vida mais minimalista?

Minimalism! Minimalism!

Entra Marie Kondo. Em uma passagem pela livraria, vi pelo canto do olho o título “A mágica da arrumação: A arte japonesa de colocar ordem na sua casa e na sua vida“. Ao mesmo tempo em que soava um alerta de autoajuda, as tags #artejaponesa, #colocarordem e #mágica foram mais fortes. Fiz uma rápida pesquisa sobre a autora e comprei o livro.

<micro resenha>

Mesmo quem fica horrorizado com a ideia de arrumar qualquer coisa pode se divertir com o livro de Marie Kondo. Para explicar o método de organização pessoal que criou, ela conta como desde os CINCO ANOS DE IDADE (!) já era apaixonada pela ideia de arrumar tudo que via pela frente. As histórias que ela conta deixam a impressão de que ela podia ser facilmente um personagem de Haruki Murakami. E com a mesma organização e eficiência prometidos em seu método, ela defende porque o método KonMari tem a chave para uma vida organizada, sem recaídas.

</micro resenha>

Marie estudou todos os métodos e dicas de arrumação e organização que encontrou em livros e revistas especializadas. No entanto, mesmo depois de uma mega faxina, ela nunca sentia que as coisas estavam de fato em seu lugar. Depois de um tempo, o estalo: todos os métodos ignoravam a relação que as pessoas travam com seus objetos. Eles se baseavam em números (para cada peça comprada, doe uma usada), ou em uma abordagem espacial (organizar um quarto, a sala).

“Esse objeto te traz felicidade?” é a pergunta chave para o método KonMari. Aí, amigo colecionador, nada de sofrer tendo que cumprir uma meta de 5 objetos a cada mês. A questão deixa de ser quantitativa e passa a ser afetiva. Aquela blusinha azul no fundo do armário te lembra dos bons tempos da faculdade, ou está lá só pra caso um dia, talvez, quem sabe você queira usar ela por baixo de um vestido? O CD tem um encarte especial, ou é só mais um disco que você comprou por impulso depois de ter visto um show? A resposta determina se o objeto vai pra doação, ou fica mais um tempo com você.

O problema de atacar um cômodo por vez para organizar é que você não tem a total dimensão dos objetos que possui. A sugestão de Kondo é juntar todos os objetos de uma determinada categoria em um ponto da casa (em, claro, uma ordem sugerida por ela) para que você manipule um. Por. Um. Sim, ela recomenda que no caso de livros você esvazie todas as estantes pra fazer a triagem (Pânico). Assim, você vai se sentir um personagem de Acumuladores poder tocar e analisar objeto por objeto, sentir no contato se ele te traz felicidade.

Eles acham que são donos das suas coisas. Mas a verdade é que as coisas é que são donas deles. 

Eu curto uma listinha, uma classificação, um Excel, uma ordem, apesar de lutar contra os montinhos de objetos que vão se acumulando na mesa ao longo da semana. E a ideia de conseguir organizar sem ter que abrir mão das coisas que estão na gaveta e que não ~servem pra nada, mas “ah, são tão fofas” é muito tentadora. Sendo assim, decidi aplicar o KonMari em casa e mostrar o processo e os resultados aqui. Pode ser que eu chegue ao nirvana da organização física e mental. Muito provavelmente vocês vão se horrorizar com a harmonia-quase-TOC de como eu arrumo algumas coisas e a zona que guardo outras. Pelo menos eu já estou feliz de escrever novamente.

Mágica! Arrumação!
Mágica! Arrumação!